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15/10/2026•Por Pr. Edson Hagmayer

Nem direita nem esquerda somos brasileiros

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Nem direita nem esquerda: somos brasileiros

Uma conversa sobre o futuro do Brasil começou com uma pergunta sobre a escola do bairro. Terminou quando alguém exigiu saber: “Você é de direita ou de esquerda?”. Em que momento uma proposta passou a valer menos do que o rótulo de quem a apresenta?

Talvez você conheça essa cena. A família se reúne, alguém menciona o posto de saúde, a segurança da rua ou o custo de viver na cidade, e logo a conversa muda de assunto sem ninguém perceber. Já não se discute o problema nem o que poderia resolvê-lo; tenta-se descobrir a qual lado cada pessoa pertence. Quem não responde depressa fica sob suspeita. É assim que a polarização vai nos colocando, dia após dia, em bolhas: elas oferecem a sensação de pertencimento, mas cobram, em troca, a disposição de desconfiar de quem está fora.

Quando a diferença alimenta a bolha

Uma bolha não se mantém apenas porque pessoas semelhantes conversam entre si. Ela se fortalece quando a diferença vira ameaça e cada reação do outro lado parece confirmar tudo o que já se pensava a respeito dele. Um ataque recebe outro ataque; uma frase recortada vira prova de que não vale a pena ouvir; o desacordo, que poderia abrir uma pergunta, encerra a conversa. Os dois polos podem se alimentar desse movimento, e há quem encontre nele uma vantagem política: quanto mais isoladas estiverem as pessoas, mais fácil será pedir que escolham um lado antes mesmo de conhecerem uma proposta. Não precisamos presumir que todos ajam com essa intenção para reconhecer o efeito dessa dinâmica sobre nós.

O custo aparece de maneira especialmente dura para quem não cabe inteiro em nenhum dos campos. Uma pessoa pode concordar com uma proposta de um lado, rejeitar outra do mesmo grupo e querer examinar uma terceira sem compromisso prévio com ninguém. Ainda assim, frequentemente lhe pedem uma identidade fechada, como se pensar caso a caso fosse sinal de fraqueza. O isolamento pesa; ninguém gosta de ser tratado como estranho na própria mesa ou na própria cidade. Então surge a tentação de se encaixar, repetir palavras que o grupo aprova e calar dúvidas legítimas. Aos poucos, o pertencimento deixa de ser uma relação entre pessoas e passa a depender de obediência a um repertório.

empty chairs around table

É preciso dizer isso com cuidado: ter convicções políticas não é o problema. Há posições diferentes, interesses em disputa e consequências reais nas decisões públicas; não seria honesto fingir que todas as ideias são iguais. O problema começa quando a defesa de um polo se torna tão absoluta que uma opinião contrária já não pode sequer ser examinada. Nessa hora, a pessoa não precisa responder ao argumento, porque acredita conhecer de antemão o caráter de quem falou. Quando uma lealdade nos impede de perguntar, verificar e até mudar de ideia, deixamos que ela pense por nós.

O que a fé nos ensina sobre escutar

Olha para a primeira comunidade cristã diante de uma divergência que afetava sua vida em conjunto. Em Atos 15, a questão sobre a acolhida dos não judeus não desapareceu porque alguém mandou todos concordarem. Houve discussão, escuta de testemunhos e uma decisão comunicada à comunidade. Aquela história não é um modelo pronto para a política brasileira, nem elimina a dificuldade de decidir entre propostas concorrentes. Mas revela algo precioso: a unidade não exigiu que o conflito fosse escondido. Foi necessário permanecer à mesa tempo suficiente para tratar a questão e cuidar das pessoas que seriam atingidas pela resposta.

Esse princípio nos alcança quando o debate político entra em casa, na igreja ou no trabalho. Escutar não significa abandonar o próprio juízo, assim como discordar não dá licença para humilhar. Posso fazer perguntas difíceis a quem defende uma ideia diferente da minha; posso pedir que explique como ela funcionaria, a quem atenderia e quais seriam seus limites. O que não posso, se desejo construir uma vida comum, é substituir essas perguntas por uma sentença sobre a pessoa. A conversa morre no instante em que decido que o outro é apenas a sigla, o candidato ou o slogan que imagino ver nele.

early church gathering discussion

De embates partidários a debates para o país

Se me perguntam se sou de direita ou de esquerda, entendo que queiram saber como penso. Essas palavras podem ajudar a nomear diferenças, mas não bastam para dizer quem sou nem para decidir se uma proposta é boa. Antes de qualquer rótulo, eu sou brasileiro; você é brasileiro; nós somos brasileiros. Isso não apaga nossas divergências nem exige uma concordância artificial. Recorda, isto sim, que teremos de viver com as consequências das decisões tomadas para este país, inclusive ao lado de pessoas que votaram de outro modo.

É por isso que os embates partidários, quando ocupam todo o espaço, nos deixam tão pouco. Um embate pode produzir uma frase de efeito, uma vitória momentânea na discussão ou a satisfação de ver o adversário constrangido. Um debate para o país precisa entregar mais: propostas que possam ser compreendidas, confrontadas com a realidade e cobradas depois. Diante da escola do bairro, por exemplo, não basta saber qual grupo lançou a promessa. Importa perguntar o que se pretende mudar, de que maneira e como as famílias poderão perceber se a mudança aconteceu. A mesma exigência vale para as necessidades que vemos nas ruas e nos serviços que usamos. A vida concreta não melhora porque nosso lado falou mais alto.

Tenho, sim, uma ideia de país. Quero um Brasil em que seja possível discutir necessidades reais sem transformar cada vizinho em adversário, e quero propostas responsáveis, abertas a perguntas, não apenas discursos feitos para confirmar o que uma bolha já acredita. Penso também em quem ficou fora da conversa: quem não se reconhece nos rótulos disponíveis, quem se cansou de ser interrompido e quem precisa de respostas para problemas que continuarão ali depois que a disputa do dia terminar. Isso não é falta de posição. É a escolha de dar às pessoas e ao futuro comum mais importância do que à necessidade de vencer toda conversa.

diverse hands joined together

Há espaço fora da bolha

Sair da bolha não pede que você deixe suas convicções na porta. Pede coragem para levá-las a uma conversa em que elas possam ser questionadas, corrigidas ou fortalecidas por razões melhores. Talvez isso comece numa mesa simples: alguém apresenta uma proposta de que você desconfia, e, antes de responder com o rótulo do grupo, você pergunta como ela atenderia quem precisa. Talvez comece quando você admite que uma crítica ao seu lado merece ser ouvida. Nenhum desses gestos resolve sozinho as divisões do Brasil, mas cada um impede que a divisão decida por nós o que somos capazes de enxergar.

Continuaremos a discordar sobre caminhos para o país, e algumas discordâncias serão profundas. Ainda assim, podemos exigir que elas produzam debate, não isolamento; propostas, não apenas embates; responsabilidade com os brasileiros, não submissão a uma bolha. Na próxima conversa sobre o Brasil, vale manter a pergunta aberta por um pouco mais de tempo: antes de saber de que lado está quem fala, o que a ideia apresentada pode fazer pela vida das pessoas?

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